30|03|2015
PRIMEIROS LINCES INTRODUZIDOS EM PORTUGAL ESTÃO LIVRES NA NATUREZA

 

Foram hoje abertas as portas do cercado onde, desde o dia 16 de Dezembro, estava em aclimatação o primeiro casal de lince introduzido em Portugal.

Os animais podem agora percorrer livremente o território, dispersando do local de aclimatação que está situado numa propriedade privada e Zona de Caça Turística, na região de Mértola, concelho que é considerado a Capital Nacional da Caça.

O dia de hoje marca assim o regresso efectivo do lince-ibérico aos nossos campos, ficando proprietários rurais e a caça, por terem criado no terreno as condições que possibilitam a reintrodução do lince em Portugal, intimamente ligados àquele que constitui um marco histórico na recuperação de uma espécie emblemática e em risco de extinção, sendo motivo de grande orgulho e satisfação para todos aqueles que são detentores e exploram o território nas suas variadas facetas, com destaque para a caça e agricultura.

A ANPC – Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade congratula-se por ver cumprido com sucesso mais um passo para a recuperação do lince-ibérico em território Nacional.

Destacamos e enaltecemos o importantíssimo papel em prol da conservação da natureza dos proprietários rurais, dos agricultores e dos gestores das zonas de caça da região de Mértola, trabalho esse que permitiu que o lince se tenha vindo agora juntar a um vasto leque de outras espécies com elevado estatuto de conservação que ocorrem nesta região.

Exemplo disso é o facto do cercado de adaptação, construído para acolher temporariamente os linces (com cerca de 1,5 ha), se situar a poucas centenas de metros de um ninho de águia-imperial, espécie que abunda na região, a par de outras grandes águias como a águia-real e a águia-de-Bonelli. Todo este vasto leque de predadores de topo ocorre nesta região em densidades muito acima da média, graças à existência de habitats favoráveis, vigilância, tranquilidade e à grande densidade de presas que são resultado directo da gestão e fomento desenvolvidos nas zonas de caça.

O Parque Natural do Vale do Guadiana (PNVG), ocupado por zonas de caça em quase 100% da sua área, muitas vezes adjectivado por facções anti-caça dentro do então-ICN como sendo «não um Parque Natural… mas sim o Parque Cinegético do Guadiana», já antes era… e é agora ainda mais!... motivo de orgulho e expoente máximo para a conservação da natureza, conservação essa feita de mãos dadas e em concertação com proprietários rurais, agricultores e gestores das zonas de caça da região, tendo por base o empenhamento e o investimento dos privados.

Importa agora que projectos, como o LIFE para a reintrodução do Lince-ibérico, comecem a investir em acções de gestão dos habitats e do coelho na região de Mértola, na medida em que, até ao momento, tais projectos apenas foram responsáveis por parte da monitorização do coelho-bravo e pela construção do cercado de adaptação, existindo muito mais por fazer. É fundamental que os investimentos deste LIFE sejam também canalizados para a região de Mértola e não apenas para a região da Malcata e de Moura-Barrancos, na medida em que a reintrodução efectiva do lince está a decorrer em Mértola e nesta região quase nada foi feito ao abrigo desse projecto.

Reiteramos assim, que foi graças ao trabalho de proprietários e gestores de zonas de caça que foram reunidas em Mértola as condições que permitiram a reintrodução do lince-ibérico, quer em termos de habitat, quer em termos de densidades da sua presa preferencial, o coelho-bravo.

Para chegarmos a este momento histórico, foi desenvolvido um longo e por vezes complicado processo, no qual a ANPC tem vindo a participar activamente desde 2008. Relembramos a forma apressada como a reintrodução esteve para acontecer no ano passado, numa altura em que o coelho tinha caído a pique devido à nova variante da doença hemorrágica e não estava ainda concluído o processo de negociação do Pacto Nacional para o Lince, do qual a ANPC foi proponente e subscreveu desde a primeira hora.

As condições ideais para a reintrodução do lince possivelmente nunca serão atingidas, mas consideramos que foi possível criar as condições mínimas, nomeadamente:

- Está assinado o Pacto Nacional para a Conservação do lince-ibérico (dando garantias que não serão impostas condicionantes à caça e às demais actividades existentes no território e que promove um clima de confiança e cooperação entre os diferentes tipos de agentes e intervenientes no processo);

- Estão já estabelecidos acordos para cerca de 7.000 ha na região de Mértola (estando em negociação acordos para cerca de 10.000 ha mais);

- A população de coelho-bravo deu sinais de recuperação (tendo sido possível realizar este ano em Mértola caçadas já muito satisfatórias, quando o ano passado a maior parte das zonas de caça da região optou por não caçar o coelho);

- Está aprovado por Bruxelas o novo Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020), contemplando uma medida silvo-ambiental específica para o lince, contendo ainda majorações de 10% nos apoios a investimentos em gestão cinegética, para as zonas de caça que tenham estabelecido acordos ao abrigo do Pacto Nacional para a Conservação do Lince-ibérico.

Apesar de considerarmos que os apoios do PDR 2020 são escassos, com tectos máximos de apoio muito limitativos no caso da medida silvo-ambiental; e a dotação financeira para a medida de apoio à cinegética ser reduzida, consideramos estes instrumentos de grande relevância, sendo medidas pela qual a ANPC muito se bateu ao longo deste processo negocial e que agora serão uma realidade.

A ANPC congratula-se assim com este momento histórico, nomeadamente a libertação efectiva na natureza dos primeiros dois de vários exemplares que serão introduzidos em Portugal no decorrer dos próximos meses, isto depois de terem já sido libertados em Espanha várias dezenas de linces criados em cativeiro.

Enaltecemos por fim a forma como o processo tem estado a ser conduzido pelo ICNF e pela equipa do PNVG, com o envolvimento de vários técnicos e especialistas que asseguram o seguimento destes dois linces, agora em busca de um território para se instalar. Existe ainda esperança de que a fêmea possa ter engravidado durante o período de aclimatação, que coincidiu com o início da época de reprodução, e que a primeira ninhada de linces nascidos em Portugal na natureza, depois de várias décadas sem qualquer registo confirmado, possa estar para breve.

João Carvalho (ANPC)

 

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